vejo o tempo caminhando pelo o meu rosto
pernas
boca
subindo em mim feito um bicho
indo para lugar nenhum
dou lugar aos desejos que nunca tive e não peço mais desculpas por isso
não tenho pedido desculpas por muita coisa;
tenho me deixado errar e gritar e chorar
mesmo que seja em meio a um carro em movimento
já estou acostumada com a velocidade e não sinto medo
mas diferente de antes
hoje eu não quero colidir contra algo e desaparecer para sempre
pois aprendi com o meu pai a não temer a velocidade
mas tive que estar longe dele
para desaprender a odiar a vida
vejo a fogueira ser acesa no fim de tarde
ouço rodrigo amarante tocando pela milionésima vez
e penso em tudo aquilo que ficou para trás:
os números de emergência
as paredes brancas
a carta para minha irmã
os diários incompletos
e a minha rebeldia indomável
ainda me lembro do meu próprio caminho
e sim, perdi muitas pessoas ao longo dele
mas não
eu não posso ser uma dessas que fica para trás
abro a porta do meu peito
dou boas vindas a tudo aquilo que eu nunca olhei nos olhos antes
deixo as contradições entrarem lentamente
me beijando a testa
me pintando a pele
me revirando de cabeça para baixo
não há como eu me perder de mim mesma
toda ida é sempre uma volta
toda fuga é sempre um encontro
tudo está alojado em mim
poros
pelos
cicatrizes
pois esta é a minha casa
e mesmo que costurada pelo tempo ao seu próprio ritmo
eu ainda estou aqui
em algum lugar.
mv.











